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quinta-feira, setembro 08, 2005 

AUTOR DO MÊS - SETEMBRO



JOSÉ SARAMAGO

Nascido no Ribatejo, mas desde muito novo a residir em Lisboa, José Saramago é um caso paradigmático de escritor autodidacta: com um curso em serralharia mecânica concluído em 1939, vai, ao longo dos anos, repartir a sua actividade profissional pela tradução, a direcção literária e de produção numa casa editora, colaborações várias em jornais e revistas (salientando-se a função de crítico literário que manteve na Seara Nova e o jornalismo propriamente dito, tendo orientado o "SuplementoLiterário" do Diário de Lisboa e sido director-adjunto do Diário de Notícias, já no período pós-revolucionário de 1974-75). Tendo embora iniciado a sua carreira nas letras em 1947, com o livro Terra do Pecado, é em 1980, com o romance Levantado do Chão, história da vida de uma família camponesa do Alentejo desde o início do século até à revolução de Abril e ao advento da reforma agrária, que José Saramago produz aquilo a que já se convencionou chamar o seu "primeiro grande romance". Primeiro porque a partir daí eles se têm sucedido regularmente como outros tantos "grandes romances", o maior dos quais, por ter constituído um autêntico "caso" de celebridade tanto nacional como internacional, com tradução para uma vintena de línguas e adaptação a libretto de ópera, foi sem dúvida Memorial do Convento (1982). Fascinante relato da construção do convento de Mafra e do esforço dos homens que o construíram, Memorial do Convento trata também do sonho do "padre voador", Bartolomeu de Gusmão, e da construção da sua Passarola, que voará mercê das vontades dos homens que Blimunda, a que vê através dos corpos e da terra, irá, pacientemente, aprisionando num frasco. Tudo isto é servido por um estilo que passará a constituir forte marca do autor e que se define, basicamente, pela supressão de alguns sinais de pontuação, nomeadamente pontos finais e travessões para introduzir o diálogo entre as personagens, o que vai resultar num ritmo fluido, marcadamente oral e muito próprio, tanto da escrita como da narrativa. Estas características irão, aliás, contribuir para transformar os seus livros em objecto de interesse para encenadores, músicos e realizadores de cinema: Memorial do Convento, de que o autor recusou autorizar uma adaptação cinematográfica, foi já adaptado a ópera pelo compositor italiano Azio Corghi, com o título "Blimunda". A estreia mundial, com encenação de Jérôme Savary, realizou-se no Teatro alla Scala, de Milão, em Maio de 1990. Também da peça In Nomine Dei foi extraído um libretto: o da ópera "Divara", estreada em Münster (Alemanha), em 31 de Outubro de 1993, com música de Azio Corghi e encenação de Dietrich Hilsdorf. De romance histórico se tem inevitavelmente falado em relação à produção romanesca de Saramago, embora o próprio autor recuse tal etiqueta aplicada às suas obras. E se os romances de José Saramago estão definitivamente modelados numa dimensão histórica (quer os que remetem para o passado - a maioria - quer, por exemplo A Jangada de Pedra (1986), que surge como ficção de uma hipótese fantástica situada num futuro), não o estarão menos numa dimensão propriamente humana, naquilo em que a acção e reflexão dos homens, mesmo, ou principalmente, dos mais modestos no interior de cada época histórica, pode pesar para ocasionar desvios, ainda que ficcionais, da "verdade" que a História consignou. Se o romance de José Saramago é histórico, pela dimensão histórica, e fantástico, pela dimensão fantástica, ele é principalmente dos homens e das mulheres na história e da sua capacidade de ver e agir sobre o real para além do crível e do evidente. Parte da extraordinária receptividade que as suas obras têm merecido em todo o mundo, e que culminou com a atribuição do Nobel, dever-se-á, sem dúvida, a esse carácter humanista, a esse reduto de confiança e esperança no poder do humano que a sua obra projecta. De facto, mesmo antes da consagração máxima trazida pelo Nobel, Saramago era já o autor português contemporâneo mais traduzido, com livros editados em todo o mundo, da América do Norte à China, e detinha já um capital de prestígio reconhecido pela atribuição de vários prémios literários internacionais e nacionais - de onde se destacam o Prémio Camões, em 1995 e os prémios Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (1993) e de Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores (1995) -, doutoramentos honoris causa pelas Universidades de Turim (Itália), Manchester (Inglaterra), Sevilha, Toledo e Castilla-La Mancha (Espanha) e graus honoríficos, como o de Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada e Chevalier de l'Ordre des Arts e des Lettres (atribuído pelo governo francês). É, além disso, membro honoris causa do Conselho do Instituto de Filosofia do Direito e de Estudos Histórico-Políticos da Universidade de Pisa (Itália); membro da Academia Universal das Culturas (Paris); membro correspondente da Academia Argentina das Letras e membro do Parlamento Internacional de Escritores (Estrasburgo).

PRINCIPAL BIBLIOGRAFIA


Terra do pecado (Romance), 1947 ; 2004
Os poemas possíveis (Poesia), 1966 ; 1992
Provavelmente alegria (Poesia), 1970 ; 1985
Deste mundo e do outro (Crónicas), 1971 ; 2001
A bagagem do viajante (Crónicas), 1973 ; 2000
As opiniões que o D.L. teve (Crónicas), 1974
O ano de 1993 (Poesia), 1975 ; 1987
Os apontamentos (Crónicas), 1976 ; 1990
Manual de pintura e caligrafia (Romance), 1977 ; 1983
Objecto quase, 1978 ; 1984
A noite (Teatro), 1979 ; 1987
Levantado do chão (Romance), 1980 ; 2002
Que farei com este livro (Teatro), 1980 ; 1988
Viagem a Portugal (Viagens), 1981 ; 2003
Memorial do convento (Romance), 1982 ; 2004
O ano da morte de Ricardo Reis (Romance), 1984 ; 2003
A jangada de pedra (Romance), 1986 ; 2002
A segunda vida de Francisco de Assis (Teatro), 1987 ; 1999
História do cerco de Lisboa (Romance), 1989
O Evangelho segundo Jesus Cristo (Romance), 1992
In nomine Dei (Teatro), 1993
Cadernos de Lanzarote I (Diário), 1994
Ensaio sobre a cegueira (Romance), 1995 ; 2004
Cadernos de Lanzarote II (Diário), 1995
Cadernos de Lanzarote III (Diário), 1996
Todos os nomes (Romance), 1997 ; 1999
Cadernos de Lanzarote IV (Diário), 1997
Cadernos de Lanzarote V (Diário), 1998
O conto da ilha desconhecida, 1999 ; 2005
Discursos de Estocolmo, 1999
Folhas políticas (1976-1998) (Crónicas), 1999
A caverna (Romance), 2000 ; 2001
A face de Saramago, em colab. com Maria Paula Lago, 2000
A maior flor do mundo (Infanto-juvenil), 2001 ; 2002
O homem duplicado (Romance), 2002 ; 2003
Don Giovanni ou o dissoluto absolvido (Teatro), 2005

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